
Esta é a primeira vez que assisto a um final de temporada de Heroes não esperando algo extraordinário. Parte do que aconteceria no final era esperado, mas algumas coisas acabaram me surpreendendo. Principalmente a deixa para a nova temporada, que nem sabemos se irá acontecer.
Por mais que Claire e Noah se desentenderam ao longo dos 4 anos da série, conseguiram nessa ultima temporada finalmente criar algum entendimento mais sólido. A questão da confiança foi estabelecida, mas abalada novamente ao final do episódio. A revelação do passado de Noah foi algo feito no momento errado mas pelo motivo certo. Pela primeira vez Claire consegue ver o pai pelo que realmente é.
Com os dois presos no buraco, era certa a morte de Bennet pela falta de ar. Mas é óbvio que não iriam matar um dos personagens mais populares da série. E foi nesse momento que trouxeram Tracy de volta, quase que marcando uma despedida da personagem na série. A saga de Tracy foi completamente esquecida em Heroes. Nos quadrinhos a coisa é diferente, as histórias são mais concisas, bem mais trabalhadas e mais animadoras do que as da série. Mas são universos diferentes, então nem sempre o que acontece na série reflete nos quadrinhos, e vice-versa.
A quarta temporada começou com uma certa tendência, que foi se modificando ao longo da temporada, convergendo para um final que parece remeter a planos diferentes. Assunto para uma análise geral da temporada, mas que precisa ser mencionado aqui:
Redemption deu voltas desnecessárias, mudou seu curso (ia para o leste, mudou para o sul e depois foi ao norte, como a bússola de Samuel). O Carnival mudava de lugar. Como? Acho que nunca vamos saber. Tracy era pra ser “a vilã”, mas mudou de idéia e depois já não sabia mais o que queria.
Voltando ao episódio, acho que detalhadamente não há muito o que falar dele. Peter e Sylar funcionaram bem, mesmo eu sentido que Sylar não estava tão convincente como um herói. Pra ele e Peter, anos se passaram pra chegar naquilo. Pra nós, não. Hiro se reencontra com Charlie já uma senhora. Achei uma boa saída para uma vinda impossível da atriz original para o papel. No fim das contas Hiro não só salvou a vida de Charlie, como a deixou (sem querer) num lugar onde poderia seguir com sua vida e se tornar uma pessoa feliz criando sua própria família.
O maior erro nisso foi repetir a dose de uma lição já aprendida no passado por Hiro. Voltar no tempo para mudar o futuro (ou o presente, que seja) não vale a pena. Claire então já passou diversas vezes por situações tão repetidas que ficou previsível suas motivações com o passar do tempo. Somente Peter vivenciou algo diferente. Lutando sozinho para se tornar um herói, tendo que aceitar a morte do irmão, tendo que enfrentar seu maior inimigo e depois se tornar aliado dele. Foi uma temporada de crescimento para este personagem.
E quanto ao resto? Matt pagou pelas consequencias de seus atos ao manipular Sylar criando a identidade de Nathan nele. Sofreu pelas chantagens do vilão e ainda se puniu ao evitar o uso de seus poderes. Poderes que foram encarados como uma espécie de maldição, algo que o ligaria com o que aconteceu com seu pai. Sim, havia algo no Matt que poderia ser muito mais bem aproveitado do que apenas sofrer na mão de Sylar enquanto tentava retomar a sua vida de pai de família. Seu poder poderia atormenta-lo muito mais, o levando a se tornar um vilão como seu pai foi. Está tudo aí para ser aproveitado. No final das contas Matt não aprende nada. Quando finalmente tem uma boa idéia, Peter chega para acabar com a festa. Um mal necessário.
Peter e Emma. Mais uma parte interessante da temporada. Não forçaram um romance entre a dupla, o que se tornaria um clichê fácil para Peter. Peter foi companheiro, amigo. Trouxe Emma de volta à vida. Não era uma Simone, ou uma Caitlin (e ficar esquecida no tempo, literalmente) era uma personagem de personalidade, forte. Mal aproveitada, como muitos, mas que teve seu espaço.
Samuel foi tudo. Bom, ruim, amado, odiado, confuso, imponente, infiel, poderoso e fracassado. Hora queria conquistar um amor do passado, hora queria apenas ser poderoso. Também quis impor seu poder à pessoas comuns, quis revelar que no mundo haviam pessoas com poderes e que elas eram seres superiores a todos os outros. Quis liderar um exército de seres especiais, quis convencer a todos que tinha a razão. Acabou sozinho, derrotado, preso, mas ainda vivo. É dificil matar um vilão carismático em Heroes. Se bem que Samuel não foi de todo aceito pelo público.
Ando foi como Tracy. Tinha objetivos, depois não teve mais. Sumiu, voltou. A diferença é que Ando foi muito mais funcional que Tracy. Sem Ando apoiando Hiro, Hiro não é o mesmo. Sem Ando não seria divertido o resgate de Mohinder. Não haveria uma pessoa para chama-lo de volta a sua realidade enquanto lidava com uma velha Charlie. Pena que tudo ocorreu um pouco tarde.
Mohinder então, se foi mesmo? Se foi, foi tarde. Tudo que ele fez nessa temporada foi piorar as burradas que já cometeu no passado. E isso é a mesma coisa que ele vem fazendo desde a primeira temporada. Mohinder criou o soro que fez Sylar se recuperar. Bolou uma fórmula para dar poderes a pessoas comuns quando deveria fazer o oposto. Foi até Joseph dizendo que Samuel poderia ter um poder maior do que realmente era. Pra quê? Para atiçar a cobiça do manipulador de terra. Quem em sã consciência faria o que Mohinder fez? Saiu pela tangente, pensando na mulher que deixou na Índia e que a essa altura já considera Mohinder carta fora do baralho.
Angela Petrelli, assim como Noah Bennet, manteve a integridade de seu personagem. É praticamente um patrimônio histórico na série. Ninguém pode mexer com ela. É um pilar que ainda sustenta a base de fãs que vem há quatro anos acompanhando essa saga. E é bom que isso não mude.
Depois de quatro anos, temos quase todos reunidos em mais uma cena final. O que mudou aqui é um simples ato de uma ex-líder de torcida. Que me fez sentir adorar e odiar ao mesmo tempo sua atitude de se jogar do alto de uma roda gigante revelando ao mundo sua habilidade. Odiei porque seu ato foi uma de uma estupidez tão grande, que até Sylar percebeu o tamanho do problema. Porque seu pai pediu, no seu quase leito de morte, para que ela jamais fizesse aquilo. Porque ela só vai criar mais motivos para se lamentar no futuro.
E adorei, porque me fez lembrar da primeira temporada. Porque Tim Kring teve um momento raro de genialidade e usou a velha frase que ela usava ao pedir que Zach gravasse os videos dela se jogando de alturas no Texas. Todos os fãs da série devem ter sentido um pouco daquela ansiedade do primeiro ano. Porque o clima de nostalgia foi alcançado pela primeira vez há muito tempo. Porque, afinal de contas, algo realmente mudou e vai render assunto para uma nova temporada, algo que até poderia ser uma prévia do que vimos em
Villains, um futuro caótico em que seres com poderes eram perseguidos e exterminados.
Esse final deixou uma ponta de esperança aos fãs que ainda seguem firmes vendo a série. Sabemos um pouco do que esperar de uma possível quinta temporada. E o pouco que sabemos é o suficiente para nos manter ansiosos por mais uma dose de Heroes no “Admirável Mundo Novo” do pós-salto de Claire.